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sexta-feira, novembro 21, 2014

Imaginário?

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Crônica de Ronaldo Rodrigues
Diz que José Saramago dirigia seu carro pelas ruas da velha Lisboa quando passou por uma banca de revista e viu, com total clareza de sua intensa miopia, o título de um livro exposto na banca, entre tantos outros livros e revistas e cartazes. Aquele título o intrigou tanto que o fez contornar o quarteirão e estacionar em frente à banca, logo descendo do carro para ter o livro em mãos. Perguntou ao dono da banca, revirou freneticamente todo o material que estava ali e, enfim, desistiu. O livro que pensou ter visto (que ele viu, segundo declarava enfaticamente) tinha o título de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Intrigante mesmo, convenhamos. Saramago não se deu por vencido: “Bem. Já que não existe esse livro, terei que escrevê-lo!”.

Lembrei dessa história – que pode muito bem ser mais uma história desse contador de histórias – porque conheço pessoas que também veem coisas que não existem. Pelo menos não existem do lado de cá da nossa realidade (ou do nosso sonho). Um amigo meu, também dirigindo seu carro, nas altas da madrugada, voltando de seu trabalho, jura ter visto um bar, desses bem pé-sujo, num quarteirão em que costuma passar todos os dias. Jura também que não estava bêbado. Como o cansaço era muito, resolveu checar a existência do bar no dia seguinte. Mas até hoje ele faz o caminho de ida e volta do trabalho e nada de encontrar o bar: “Será que o bar abriu somente naquela noite?”, pensou meu amigo e prosseguiu sua vida, tendo que se contentar com os bares existentes, alguns mais sofisticados e menos interessantes.

Um bom tempo se passou e, ao conversar com uma amiga sobre o tal bar, ouviu a mesma história. Ela se mostrou até aliviada por saber que outra pessoa tinha visto um bar que todos dizem (inclusive os fatos) não existir. Lá vinha ela pelo mesmo caminho do meu amigo quando viu (jura que viu!) um bar que chamou a atenção por ser um estabelecimento bem precário encravado entre vários prédios modernosos. Também retornou no dia seguinte, e em vários outros dias, e não conseguiu encontrar o bar.

Falei aos dois que os ajudaria a procurar o bar, apostaria no fato de ele existir e, se não o encontrássemos, faríamos como Saramago: se não tem o livro que procuro, escrevo o livro. Se não tem o bar...

Foi assim que nossa amizade virou também uma sociedade e o nosso bar é um sucesso, frequentado pelas pessoas mais bizarras da cidade, gente que me faz pensar, de vez em quando, se este bar existe mesmo. Se é que alguma coisa existe...

terça-feira, novembro 11, 2014

Viagem de volta

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Conto de Ronaldo Rodrigues
Deixei um livro em cima da mesa e fui dar uma volta. Claro que ninguém roubaria um livro ali, naquele ambiente. Só se aparecesse a menina que roubava livros. Qual a minha surpresa quando retornei, ao constatar que o livro não estava lá! Olhei em torno, exercitando meu olhar sherloqueano, mas ninguém em volta parecia interessado em livros. E ninguém parecia capaz de roubar o que quer que fosse. Resolvi dar mais uma volta pelo navio. Esqueci de dizer que estava a bordo de um navio? Perdão. Às vezes esqueço de citar partes importantes de meus relatos. Alguns escritores são assim e, como sou assim, me sinto também escritor.


Na volta ao ponto em que deixei o livro, eis que o encontro em cima da mesa, como se nunca tivesse se ausentado. Fiquei mais intrigado ainda. Abri o livro e encontrei um bilhete com a seguinte mensagem: “Não leve a mal, mas gostaria de concluir a leitura do seu livro, que achei muito interessante e me deixou surpreso ao descobrir alguém com o hábito da leitura, coisa bastante improvável em pessoas que costumam viajar neste navio. Deixe o livro em cima da mesa e vá passear, contemplar a paisagem do rio e da mata. Prometo devolver a cada vez que eu o emprestar”.

Foi o que fiz durante toda a viagem, cheguei a conhecer todos os recantos do navio e estender meu olhar por toda a bela paisagem. Minha curiosidade não foi suficiente para deixar o livro na mesa, me afastar um pouco e voltar subitamente para ver quem estava dividindo comigo o prazer das aventuras contidas no livro. Deixei o mistério tomar conta. Me pareceu que eu estaria quebrando um pacto se voltasse para flagrar meu companheiro de leitura.

Navegamos por três dias e os meus passeios pelo navio foram aumentando à medida que nos aproximávamos do porto de chegada. Queria que o leitor misterioso tivesse tempo de concluir a leitura. No último dia de viagem, achei o livro na mesa e novo bilhete: “Obrigado pelos momentos deliciosos que seu livro me proporcionou. Sem dúvida, tornou a viagem mais interessante. Que tal discutirmos o enredo do livro? Meu endereço na cidade em que aportaremos dentro de alguns minutos é...”.

Depois que aportamos, dei umas voltas pela cidade, tentando não pensar em nada daquilo. Mas não suportei o mistério e fui ao endereço indicado no bilhete. Conheci, enfim, a pessoa que pegava o livro emprestado. Era uma leitora, uma belíssima leitora. Nos conhecemos, discutimos a história do livro e de muitos outros livros e autores e temas e... Claro que nos envolvemos. E o mistério persiste até hoje.

terça-feira, setembro 16, 2014

Se arrependimento matasse... (conto de Ronaldo Rodrigues)

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Conto de Ronaldo Rodrigues

- Você vem sempre aqui?
Cantada velha, mas ela esta a fim de ser apanhada em qualquer cantada.
– Sim. Eu sempre venho aqui na esperança de ouvir uma cantada original. Mas essa serve. Vamos para sua casa?
Ele recua. Não está acostumado com essa facilidade. A cantada é sempre a mesma, a única que ele tem, mas nunca funciona. É apenas um protocolo que cumpre nos bares. Ele precisa disso para comprovar sua ideia de que todo homem bêbado precisa de uma mulher para findar a noite.
– Vamos ou não para sua casa? Ou prefere um motel? É casado?
Ele recua mais ainda. Está quase arrependido de ter iniciado a conversa. Além do mais, nem está tão bêbado assim.
– Vai responder ou não? Se não está a fim, diga logo. Não quero voltar pra casa hoje sem ter transado.
Ele não recua mais porque já tinha recuado muito.
– Vamos conversar mais um pouco.
– Sei. Você é das antigas. Mas não quero intimidades. Pra que conversar se amanhã ninguém se lembrará de nada mesmo? Aliás, é melhor assim, sem criar laços.
Ele permanece mais um tempo calado, depois fala, sem muita convicção:
– Tudo bem. Vamos a um motel aqui perto.
– Ótimo.

Chegam ao motel e ela logo fica nua. Deita-se na cama, enquanto ele vai ao banheiro. Quando volta, ela dispara:
– Ainda está de roupa? Você é muito vagaroso.
– É que eu não estou acostumado com essa... essa... 
– Essa o quê?
– Sei lá! Você tem razão. Sou mesmo das antigas. Preciso de um estímulo maior.
– Vou dar o estímulo que você precisa.
Liga as palavras aos gestos. Levanta-se e o joga na cama. Arranca sua camisa, abre o cinto, puxa a calça, tira a cueca e se joga em cima dele, que fica imóvel e não consegue corresponder às carícias cada vez mais quentes. Ela busca todo o seu arsenal de jogos eróticos, até que, finalmente, consegue que o corpo dele tenha uma reação.

Depois de alguns minutos, os dois fumam, quando batem na porta. Ela permanece calma, enquanto ele pula da cama:
– Quem será?
– Só abrindo a porta pra saber.
– Você tem alguma coisa a ver com isso? Qual é o plano? Me assaltar?
Ela vai até a porta, falando entre um sorriso sem graça:
– Que onda...

Ela abre a porta e atende à funcionária do motel, que lhe entrega um bilhete e se retira.
– É só um bilhete. E é pra você.
– Um bilhete? Pra mim? Aqui? Quem poderia saber que estou aqui? E quem mandaria um bilhete pra mim?
– Só vai saber se ler o bilhete.
– Eu vou ler, mas essa história está muito esquisita. Aposto que você tem alguma coisa a ver com isso!
– Deixa de paranoia e lê logo a merda desse bilhete!
Ele abre o bilhete e o lê várias vezes, em silêncio. Ela perde a paciência e arranca o bilhete de sua mão.
– “Cuidado! Você está em perigo!”. O que significa isso?
– E eu sei? Você deve saber! Tenho certeza de que está metida nisso!
– Escuta aqui, cara! Você já não é bem grandinho pra inventar essas histórias? Pra quê que eu ia armar pra cima de ti? A gente se encontrou por acaso na merda daquele bar. Se arrependimento matasse...
Ela não termina a frase. A funcionária do motel abre a porta novamente e dispara três tiros. Ela, com um resto de vida, ainda têm tempo para perguntar:
– O... que é... isso?
Ele, agora abraçado à funcionária do motel, sorri entre baforadas de cigarro:
– O bilhete não é pra mim. É pra você. É o tal do arrependimento. Como você pode ver, arrependimento mata...


sexta-feira, setembro 12, 2014

A arte de Ronaldo Rony

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terça-feira, setembro 09, 2014

Microcontos de Ronaldo Rodrigues

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MINHA VIDA É UM MAR DE ROSAS
Disse Elvira se afogando mais uma vez.

ONANISMO
(ou está tudo acabado entre nós)
Ao deceparem minhas mãos
dissolveram meu harém.

CAPITÃO GANCHO TAMBÉM AMA
Numa dessas ainda leva Sininho pro navio.

E SE EU ESCALASSE ESSA MONTANHA?
Pensou a aranha pouco antes de aceitar a missão.

AI, MEU FÍGADO...
Você ainda me mata do coração!

QUERIDO DIÁRIO
Vou rasgar-te, queimar-te, perder-te...
Apagar-me.

MEMORANDO DE DEUS PARA LÚCIFER
Considere-se demitido!

ORELHÃO QUEBRADO NO MEIO DA MADRUGADA
- Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!

OVERDOSE
Depois do pó
o pós.

BANDA SEM FUTURO
Aqui jazz
(esta teve colaboração de Marconi Lima)

A FLOR
Despetala para despertá-la.

COM A MORTE
- Enfim, sós...

Ronaldo Rodrigues

BUROCRACIA É O FIM

- Vim falar com Deus.
- Tem hora marcada?

MUDARAM AS ESTAÇÕES
No outono, no inverno,
minha prima Vera vira verão.

BLÁ-BLÁ-BLÁ
Quando faltar assunto, fique em silêncio.

CUIDADO - FRÁGIL
Quebrei meus olhos nas plumas do caminho.

BALA PERDIDA NÃO EXISTE
Todo coração tem endereço fixo.

MATOU A SAUDADE
Deu um tiro no peito.

GANGORRA
- Olha como eu toco no chão!
- Olha como eu toco no céu!

BASEADO BLUES
Fumaça colorida no ar de Barcelona.

FOLHA DE PAPEL A ME DESAFIAR
Te risco.
Me arrisco.

NO PAÍS DO CARNAVAL
Na quarta-feira, deparou com as cinzas do pierrô.

PÁSSARO NA GAIOLA
Só a ilusão conseguiu fugir.

ME DEIXASTE!
Me vingo te amando mais.

EM BRANCAS NUVENS
Lá vai a vida assim
sem saber se foi bom ou ruim.

MUDARAM AS ESTAÇÕES
A flor e a folha mudaram de ramo

MINHA VIDA É UM MAR DE ROSAS
Disse Elvira se afogando mais uma vez.

ONANISMO
(ou está tudo acabado entre nós)
Ao deceparem minhas mãos
dissolveram meu harém.

CAPITÃO GANCHO TAMBÉM AMA
Numa dessas ainda leva Sininho pro navio.

E SE EU ESCALASSE ESSA MONTANHA?
Pensou a aranha pouco antes de aceitar a missão.

AI, MEU FÍGADO...
Você ainda me mata do coração!

QUERIDO DIÁRIO
Vou rasgar-te, queimar-te, perder-te...
Apagar-me.

MEMORANDO DE DEUS PARA LÚCIFER
Considere-se demitido!

ORELHÃO QUEBRADO NO MEIO DA MADRUGADA
- Caraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaalho!

OVERDOSE
Depois do pó
o pós.

BANDA SEM FUTURO
Aqui jazz
(esta teve colaboração de Marconi Lima)

A FLOR
Despetala para despertá-la.

COM A MORTE
- Enfim, sós...

Ronaldo Rodrigues

segunda-feira, setembro 08, 2014

Três bebedeiras memoráveis

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Bebedeiras fazem parte da vida de um escritor. Tá, tudo bem! Nem de todo escritor. Eu, que me sinto escritor (às vezes) e beberrão (sempre), curto a embriaguez de ser um escritor beberrão. Muitos sabem que gosto de me sentir Charles Bukowski. Quer dizer: poucos sabem e quase ninguém se importa, mas sempre que leio Bukowski recebo a entidade Bukowski e as únicas coisas que me interessam nesses momentos são uma garrafa de cerveja ou vinho barato, um cigarro mais barato ainda e uma puta bem puta mesmo.

Gosto do mito que se cria em torno de um escritor. O mito de Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, que não dão entrevistas e não frequentam os lugares. O mito de J. D. Salinger, que não se deixava fotografar. O mito de Paulo Leminski e Jack Kerouac, que viviam uma espécie de convulsão da literatura. E por aí vai, mas voltemos ao título. Que título? O título da crônica, caralho!

As três bebedeiras memoráveis que menciono no título são aquelas que consigo lembrar, claro, já que são memoráveis. Uma delas se deu numa passagem de ano. Era no século passado e eu ainda morava em Belém. A bebida era champanhe e eu não era (e ainda não sou) muito fã de champanhe, pois achava muito fraca. E era aí que estava o erro. Aconteceu aquilo que dizem de champanhe. Ela veio cercando devagarinho e quando me toquei já não me tocava de mais nada e toquei a fazer besteira. Atravessei a Marambaia inteira sob o efeito da champanhe, tirando onda com todo mundo, cantando alto e feliz da vida. E até hoje não sei se é A champanhe ou O champanhe.

Outra bebedeira legal foi na abertura de uma exposição (ou vernissage, como queiram). Não sei como está hoje, já que vivo longe (mas bem perto) de Belém há 17 anos, mas, no final dos anos 80, Belém fervilhava de vernissages. Eu e minha galera da época íamos a uns quatro vernissages por semana. E sempre regados a bons vinhos brancos e outras bebidas. Pois bem: dentro do quesito outras bebidas, certo dia encontrei uma sangria muito doida. Depois de sangrar toda aquela sangria, fiz uma porção de loucuras na galeria até que alguém mais sensato me pediu, educadamente, pra dar o FOOOOOOORA DAQUI, SEU MARGINAAAAAAAAL, ANTES QUE EU FAÇA UMA SANGRIA NA TUA CAAAAAAARA!

A terceira e última bebedeira louca (terceira e última para as finalidades desta crônica, que fique esclarecido!) foi na casa de um amigo, já aqui em Macapá. Depois de um bolo de maconha, muitos baseados e muitas cervejas, apareceu uma garrafa de absinto. Aí, mano, imagine o que aconteceu. Se conseguir imaginar, me diz aí, por que eu, até agora, estou vendo gnomos.

Até a próxima bebedeira ou até a próxima crônica. O que vier primeiro. Saúde!

quarta-feira, agosto 27, 2014

Cartum paid'égua de Ronaldo rony

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"Cartum selecionado no Salão de Humor de Volta Redonda de uns cinco anos atrás. Ou mais. Gosto desse desenho" - Ronaldo Rony.

quinta-feira, agosto 21, 2014

Pensando bem...

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Paro para pensar e penso que na minha aldeia há um dito: não se deve parar para pensar, mas continuar andando enquanto se pensa, porque isso é pensar: colocar o lado de dentro da cabeça em movimento.

Então, sigo pensando e passo a pensar que passei muito tempo da vida só pensando. Todas as pessoas da cidade trabalhavam. Ou saíam paras as danceterias. Ou praticavam algum esporte. Ou simplesmente jogavam conversa fora. Enquanto isso, eu só pensava. Pensava nessas pessoas todas se movimentando pelos lugares que citei acima. Ou pensava nesses lugares sem as pessoas. Ou as pessoas fazendo coisas em outros lugares.

Poderia até pensar que perdi tempo pensando e que poderia juntar ação ao pensamento e fazer como a maioria dos mortais: viver. Mas posso também pensar que tempo nada significa para quem pensa, já que quem pensa pode muito bem pensar em parar o tempo. Ou destruir tudo o que é real e construir um mundo só de pensamento. E, como se trata de pensamento, tudo é possível.

Certa vez, fui assaltado pelas ideias mais loucas. Estava eu dormindo tranquilamente, eis que as ideias chegaram. Com armas pesadas nas mãos, elas gritaram: isto é um assalto! Não se mexa! Você é todo nosso! E entraram por meus olhos, pelo nariz e pela boca, invadiram todos os poros, os condutos dos cabelos, e chegaram até os neurônios. Essas ideias, embaralhadas dessa forma, passaram a ser outro tipo de pensamento: o sonho, que é o pensamento de quem dorme. É a forma que o pensamento achou para continuar existindo quando, supostamente, a cabeça está descansando, em stand by. Ah, sim! E por falar em stand by, é hora de dizer bye-bye. Dá licença que eu vou pensar, que é o que todo mundo deveria fazer. Mas pouquíssima gente faz.

sexta-feira, agosto 15, 2014

C a f a r n a u m

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Trechos de uma entrevista de Elias Cafarnaum, filósofo que, segundo o próprio, jamais existiu.

Assim falou Cafarnaum:

• Nascemos nus. É a gloriosa mecânica da vida. Nascemos nus para que venham o Estado, a Igreja e a sociedade nos obrigar a vestir roupas, valores, credos, ideologias...

• Acredito que, em vez de acumular coisas, as pessoas deveriam ir, ao longo do caminho, se despojando das coisas que já possui.

• Comecei a fumar aos 14 anos. Mas, profissionalmente, somente aos 19.

• Certa vez fui à farmácia comprar camisinha. A atendente perguntou se eu queria uma camisinha com mais ou menos lubrificante, com esse ou aquele odor, e muitas dessas pirotecnias aí. Respondi que bastava uma camisinha, uma simples camisinha. Os efeitos especiais ficariam por minha conta.

• Desconfio de qualquer comida que, por um motivo ou outro, não se pode colocar farinha.

• Quem nunca se viciou que atire a primeira pedra. De crack.

• Não é difícil acreditar na existência de Deus, mas é impossível acreditar em sua bondade. Só uma mente pérfida e uma total falta de sentimentos poderiam criar algo tão repugnante quanto o ser humano.

• O artista é antes de tudo um forte. Um forte candidato ao anonimato e à frustração.

• Quando a morte se apresentar não quero ter um centavo sequer no bolso.

• Você acorda de um sonho magnífico, se levanta no maior astral, toma o seu banho com imenso prazer e sai disposto a partilhar sua fraternidade com o mundo. Aí vem um serzinho qualquer e estraga tudo. Que merda!

• Uma vez li a frase ama-te a ti mesmo, de Sócrates. Achei que se tratava de masturbação. Estou nessa até hoje.

• Sou imune à decepção. Ninguém me prometeu nada e eu não espero nada de ninguém.

• O que eu acho das pessoas? Quando eu conhecer alguma eu digo.

Cafarnaum virou esta crônica, mas é também um vídeo experimental que tem a seguinte ficha técnica:

Roteiro/texto: Ronaldo Rodrigues
Imagens: Alexandre Brito / Tuto Pessoa
Edição: Tuto Pessoa
Direção: Alexandre Brito / Ronaldo Rony
Elias Cafarnaum foi interpretado por Aldo Cefer

terça-feira, agosto 05, 2014

Sonho?

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Conto de Ronaldo Rodrigues

Foi um sonho. Nesse sonho ela amou e se feriu. Feriu seu sábado. Que sangrou até o pôr-do-sol. No sonho estava só, em meio à multidão. Que nem do lado de cá. Acordou com o orvalho antigo, sempre novo, que lavava o rosto da floresta. Percorreu os quilômetros que a separavam do vinhedo. Gritou no desfiladeiro cor-de-rosa de seus desejos ocultos. E se atirou no rio de pedras preciosas recolhidas ao acaso. Mergulhou para dentro de outro sonho, onde amou. Amou e se feriu. E foi num sábado.

O sonho era este, assim desordenado, onde as palavras apareciam nos muros, por sobre a hera, à medida que ela os olhava. E diziam coisas assim: o velho tateia na escuridão e encontra, enfim, a porta. O velho abre a porta e vê a menina nua deitada na cama, olhando o teto. Apesar da visão perturbadora, o velho mantém-se calmo. A menina ali, linda e nua, olha as estrelas pelos buracos do telhado.

O velho fecha a porta e a menina desvia o olhar para ele. O velho se despe e parte lentamente em direção à menina. A menina levanta-se da cama, enquanto o velho se deita. A menina veste a roupa do velho, que fica parado, deitado na cama, olhando as estrelas através dos buracos do telhado. A menina sai, tranca a porta e vai embora. No bar, encontra os amigos e passa a relatar mais uma captura.

Assim era o sonho, onde ela amou e se feriu. Sem saber que era sábado.

terça-feira, julho 29, 2014

Kafka e a caixa d’água transbordante

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

A caixa d’água começa a transbordar na casa ao lado. E ninguém desliga. Fico puto quando isso acontece. Parece que ninguém se importa com a água indo pelo ralo sem ser usada. Eu sinto como meu sangue estivesse escorrendo.

Bato na porta do vizinho, ninguém atende. A família deve ter saído para o lazer de domingo e deixou a bomba ligada. Já vejo a família curtindo o domingo na maior paz de consciência, à beira do rio Amazonas, enquanto o próprio rio Amazonas se esvai pelo ladrão da caixa d’água.

Resolvo pular o muro que divide o meu quintal e o do vizinho para desligar a bomba. Eis que Kafka surge em meu caminho. Kafka é a cadela buldogue do vizinho. Não me pergunte por que deram o nome de Kafka para ela. Os vizinhos não parecem pessoas familiarizadas com literatura. 

Kafka está deitada entre o muro em que estou e o interruptor. Enquanto tento vencer o medo e me lançar naquela aventura de tentar desligar a bomba, a água cai em cachoeira, aumentando a minha aflição.

Kafka não nota minha presença. Ou finge não notar. Já ouvi falar de cachorros que deixam a pessoa se aproximar sem dar alarme até que não haja possibilidade de fuga. Quando penso em descer do muro e enfrentar Kafka, eis que a bomba se desliga sozinha. Deve haver algum dispositivo que regula o tempo em que a bomba fica ligada. Menos mal.

Kafka olha para mim e boceja com aquela boca enorme de buldogue. Acho até que ela está rindo da minha aflição. Fico aliviado por não ter que enfrentar Kafka. Desço do muro, são e salvo, e comemoro o fato escrevendo esta crônica.

segunda-feira, julho 28, 2014

A arte e o bom humor de Ronaldo Rony

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sexta-feira, julho 25, 2014

Quer saber a diferença entre disco de vinil e CD? É só colocar o outro lado.

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

O disco de vinil voltou com força total, trazendo nostalgia e simplicidade para este mundo tão prático e digital. Claro que ninguém está propondo que se troque o CD pelo vinil. Isso seria retrógrado, anacrônico, demodê. Quadrado, para usar uma gíria mais antiga. Hoje, em plena evolução dos equipamentos eletrônicos, há espaço para todas as mídias. 

Vamos à história

O disco de vinil (long-play ou LP) surgiu em 1948, jogando pra escanteio o disco de goma-laca utilizado até então. O disco de vinil é mais leve, maleável e resistente a choques, quedas e manuseio.
O vinil começou a perder espaço no início da década de 1990, com a invenção do compact disc (CD), de maior capacidade e clareza sonora (ainda que, segundo alguns, clareza sonora quem tem mesmo é o disco de vinil). Nessa época, na Europa, Estados Unidos e Japão, sempre avançadinhos, o disco de vinil já era considerado peça de museu.

Mais história

Aqui no Brasil, o LP começou a perder espaço em 1992. A partir de 1995, as vendas do LP caíram por causa da estabilização da moeda e melhoria do poder aquisitivo da população, o que permitiu a aquisição de mídias musicais mais modernas. As grandes gravadoras lançaram LPs até 1997. Aos poucos, o disco de vinil saía de cena.

A volta triunfal

Assim como nossos sobrinhos mais novos nunca ouviram música em disco de vinil, há várias pessoas que nunca deixaram de ouvir. É gente conectada nas internets da vida, que tanto curte som no pendrive quanto no vinil. E há artistas como Maria Rita, Lenine e Nando Reis que, mesmo com toda a modernidade, lançam discos também em vinil.

Aqui em Macapá, o vinil é uma espécie de patrimônio da loucura musical da cidade. Os curtidores se regalam com os Devoradores de Vinil, comandados por Patrícia Andrade, em eventos pontuais, como participação especial. O Clube do Vinil ainda se reúne vez ou outra, em homenagem ao seu patrono, o saudoso Ginoflex.

O vinil é um tipo de plástico muito delicado e qualquer arranhão vira uma falha. Essa falha, que em outro contexto seria um desastre, no disco de vinil é um charme a mais. Tem gente que, ao ouvir um bolachão (outro apelido do vinil), não se contenta enquanto não ouve, entre um acorde e outro de sua canção preferida, aquele chiadinho tão aconchegante.

É isso, galera! Vamos ouvir vinil!

quarta-feira, julho 16, 2014

O plano

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Conto de Ronaldo Rodrigues

1. Estava atolado em dívidas de jogo. Precisava de um lance de mestre para sair daquela situação. Meus credores faziam plantão em frente de casa. Já não tinha desculpas a dar. Minha imaginação era bastante fértil para isso, mas sua capacidade já estava se esgotando.

Vendi o que pude da casa, algumas roupas, minha moto quase pifada. Quando peguei a grana dessas vendas, saí para pagar parte das dívidas, mas, em vez disso, fui jogar outra vez. Quem sabe não ganharia mais dinheiro para liquidar as dívidas de vez?

Que nada! Perdi tudo e contraí mais dívidas ainda. Aí que fiquei lascado mesmo!
Só restava um plano antigo, que ainda persistia lá no fundo do baú da memória. Era um plano que abandonei várias vezes por falta de coragem. Naquele momento, decidi colocar o plano em prática.

2. Analisei bem a situação para me convencer a encarar o plano. Minha vida estava um tormento só. Sempre sobressaltado, temendo que meus credores resolvessem me cobrar de maneira mais drástica, passando das ameaças à ação, e acabassem comigo numa esquina qualquer. Ou mesmo dentro de casa.

Eu não dormia mais. No máximo, desmaiava alguns minutos, vencido pelo cansaço do corpo, e logo voltava ao pesadelo do lado de cá do sono.

Decidi agir. E logo.

3. Procurei o Rocha, o agiota mais poderoso do submundo em que eu transitava. Ele, sabendo da minha situação, relutou em me fazer o empréstimo. Prometi pagá-lo em dois dias com juros a 100%. Além do mais, o dinheiro pedido, três mil e quinhentos reais, era irrisório para ele.

Rocha me deu o dinheiro junto com a clássica ameaça:

– Daqui a dois dias a gente se vê. Se não tiver a grana na mão, nunca mais tu vais fazer negócio com alguém.
– Pode deixar. Em dois dias tu vais ganhar uma comissão que nunca pegaste antes.
– Só quero ver. Vais precisar de muita sorte.

4. Saí dali e procurei o Jesse James, matador que nunca deixou um serviço pela metade. Orgulhava-se disso, relatando alguns assassinatos cometidos por dinheiro e outros sem motivo algum, só pelo fato de não ter ido com a cara do sujeito.

Contratei seus serviços para aquela noite mesmo. Passei mil reais ao Jesse James e prometi mais mil quando o serviço estivesse concluído. Ele era o melhor pistoleiro da cidade, mas cobrava barato:

– A gente não pode fazer tudo por dinheiro. Tem que restar um pouquinho de prazer. Além do mais, tem muita gente por aí que não devia nem ter nascido. Eu só livro a pessoa de uma existência escrota. É um tipo de missão, sacou?

Saquei.

Descrevi o cara que deveria ser eliminado, a hora e o local. Saí em seguida. Precisava preparar a festa.

5. Aluguei um bordel bem afastado. Por dois mil reais, todas as meninas estavam ali para me servir. Bebida, cigarro e outras drogas estavam pagos. Era só se servir.
Bebemos, fumamos, cheiramos.

As meninas dançavam nuas só para mim. Elas não beijavam na boca de seus clientes, norma da profissão. Já li que elas nunca beijam para que o cara não se lembre da mulher que ele gostaria de beijar e a qual quer esquecer. Mas, com a grana que eu tinha colocado no lance, fui beijado por todas.

As bocas se sucederam em minha boca. Dançaram, vibraram, sorveram. Me apaixonei por todas as meninas. Eram 12 e meu fôlego não conseguiu vencer todo aquele arsenal de volúpia.

Elas gostavam de contar um pouco de suas vidas. Eu as escutei atentamente, enquanto uma delas me lambia, outra me cheirava, duas massageavam meus pés e uma resfolegava em cima de mim.

O plano estava funcionado muito bem e às cinco e meia da madrugada bateram à porta. Chegara o momento, o grand finale.

6. Pedi à dona do bordel que recebesse o cavalheiro que chegava. Que ele me aguardasse enquanto eu ia ao banheiro. Pedi às meninas que lhe dessem atenção e o servissem.

Fui ao banheiro e lá me vesti. Coloquei a camisa comprada para aquela ocasião, calcei os sapatos novos e arrematei meu figurino com uma barba branca postiça. Olhei no espelho e não me reconheci. Ótimo.
Saí do banheiro, vi Jesse James muito à vontade, em meio às meninas, e parei bem à sua frente.

Ele se desvencilhou das meninas e, como foi combinado, puxou o revólver e o descarregou em mim.

Bingo! Que plano genial! Eu acabava de me livrar de todas as minhas dívidas!

quarta-feira, julho 09, 2014

Desculpem aí

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Crônica de Ronaldo Rodrigues (para meus filhos Pedro e Artur)

E o que dizer? O que escrever? Puta que pariu! Sete a um é foda! Posso dizer que a Seleção Brasileira é aquilo que supomos que fosse: um time mediano que tinha um grande craque. Assim como a Argentina (se é que isso nos consola) é um time mediano que tem um grande craque.

Em verdade vos digo que se Neymar estivesse em campo teria feito pouca diferença. Os alemães estavam dispostos e, mais do que isso, se mostraram verdadeiramente uma equipe. Foram até elegantes na comemoração, sem muito estardalhaço, como se estivessem pedindo desculpa:

- Desculpa aí, galera! Desculpa aí, Seleção Brasileira, por estragarmos sua festa!

Realmente, este time do Brasil vai entrar para a História. E pela porta dos fundos. Perder de 1 a 0 suado, ou na prorrogação, mesmo nos pênaltis, é uma coisa. Perder em menos de 10 minutos, dentro do nosso quintal, é doído demais.

Esta crônica é mais um desabafo, um pedido de desculpas aos meus filhos. Tenho vontade de dizer:

- Filhos, desculpem! Tá tudo errado! Não somos ruins de bola, não! Já ganhamos cinco vezes esse troço. Foi só um... apagão, pra deixar mais ameno (na verdade, foi um mas-sa-cre!).

Daqui a quatro anos estaremos novamente nesse perrengue, se o Brasil se classificar para a Copa da Rússia. Enquanto isso, vamos levando nossa vida, que vai muito além do tempo regulamentar de uma partida de futebol e nos permite, aqui e ali, comemorarmos um belo gol.

sexta-feira, julho 04, 2014

Roupa suja

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Levei minha trouxa de roupas sujas à lavanderia. A lavagem é barata, o problema é que a roupa volta suja, às vezes mais suja do que levei. Não sou de reclamar, tenho preguiça e precaução, já que em muitos estabelecimentos eu já vi clientes sendo destratados por reclamar. E olha que a reclamação é, na maioria das vezes, justa. Tenho medo de reclamar e a pessoa tirar uma escopeta de trás do balcão e acertar meu triste coração.

Mas reuni um pouco da remota coragem que algum remoto ancestral me legou e mostrei à atendente a mancha de lama na minha calça. Ela respondeu que aquela mancha não saía nem com o melhor produto já inventado para tirar manchas. Engoli a resposta e coloquei a culpa na rockada da qual participei, me jogando pelo chão enlameado do Espaço Caos, o que causou aquela mancha.

Outro dia deixei uma camisa branca na tal da lavanderia e ela voltou lilás. Ajustei a situação à minha incapacidade de reagir e achei legal. Afinal, eu gosto da cor lilás. Lembra a minha querida sobrinha Anna Victória que, quando bem pequenininha, chamava lilás graciosamente de dilás.

Quando vesti uma das minhas muitas camisas preferidas (digo muitas camisas preferidas porque, quem tem pouca roupa, muitas são as preferidas), notei a falta de um botão, justamente aquele mais próximo ao pescoço, que arremata o abotoamento. Gosto de usar todos os botões e fiquei me olhando no espelho partido. Acho brega o cara que deixa a camisa aberta. Aí fui à lavanderia reclamar. Cheguei lá e a atendente era outra. Muito bonita, por sinal. Mostrei o botão, aliás, a falta do botão, e ela me disse, muito sensualmente:

- Ora, botão! Pra que botão? Quanto menos botão, melhor, na hora de transar. Por falar nisso, vamos?

Ela me puxou para trás do balcão, arrancou minha camisa, junto com o resto dos botões, e transamos ali mesmo. Nunca mais reclamei da lavanderia.

terça-feira, julho 01, 2014

Que COISA!

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Crônica de Ronaldo Rodrigues tentando, sem sucesso, escrever um pouco como Woody Allen (ou COISA parecida)

Eu tinha acabado de pedir meu café com leite (sem leite) e pão com manteiga (sem manteiga) quando chegou A COISA. Trazia um poodle no colo e foi o poodle que falou:

– Olá, COISA NENHUMA! Eu sou A COISA! Quer dizer, ele é A COISA!

– Eu sei.

Eu sempre tinha esses encontros insólitos. Como aquela vez em que me deparei com um policial de minissaia correndo pela avenida na hora do rush, em profunda frustração por não ter evitado o assassinato de John, não o Lennon, mas o Kennedy. Ele me disse que ainda tinha a última frase de Kennedy martelando em sua cabeça: “Pra mim, ovos mexidos com bacon!”.

Mas voltando ao poodle que falava comigo me explicando que só fazia isso porque seu dono, A COISA, não poderia se rebaixar a tonto. Então ele mesmo tinha que fazer esse trabalho sujo.

– Muito bem! Meu amo lhe detesta. COISA NENHUMA para ele é nenhuma coisa. E assim ele o trata. Ele lhe procurou pra saber de GRANDE COISA, seu irmão-quase-gêmeo que você odeia. Diga, COISA NENHUMA! Onde está GRANDE COISA?

Fiquei atônito, como sempre ocorre quando sou destratado por um poodle. Aquele filho de uma poodle estava me provocando.

– Sei o que está pensando! – Falou o poodle despudorado. – Mas estou apenas transmitindo o que meu amo pensa de você. Se bem que não deixo de concordar com ele sobre o ser desprezível que você é, COISA NENHUMA. Só seu irmão-quase-gêmeo, GRANDE COISA, vale o sacrifício que estou fazendo. Esta última frase é minha.

– O que vocês querem com GRANDE COISA?

– Meu amo acha que você maltrata GRANDE COISA deixando-o trancado naquela gaveta de meias fedorentas naquele porão imundo.

Aquela era uma acusação absurda! Há muito que deixei de trancar GRANDE COISA na gaveta das meias pelo simples motivo de não mais usar meias.

Você está enganado! Veja! – Mostrei meus cotos. – Não uso mais meias porque não tenho mais pés, desde a última vez que encontrei com você, A COISA! Me desfiz da gaveta junto com as meias. Naquele momento eu tinha que tomar uma atitude drástica, sem meias fedidas, digo: sem meias medidas.

O poodle virou bulldog:

Eu odeio esses seus trocadilhos fora de hora! Diga de uma vez, COISA NENHUMA! Onde está GRANDE COISA?

Notei que A COISA abria sua jaqueta e tirava uma arma. Foi quando COISINHA DO PAI entrou na padaria e desferiu tiros a esmo. Me abaixei a tempo de evitar que o sangue do poodle, o único a ser atingido, sujasse minha camisa. A COISA fugiu, como sempre acontecia quando estava perdendo.

COISINHA DO PAI me cumprimentou e foi embora. Na certa ia preparar com A COISA e GRANDE COISA uma nova brincadeira. Só tinham que encontrar outro poodle falante.

quinta-feira, junho 26, 2014

A última crônica

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Crônica de Ronaldo Rodrigues

Carlos Drummond de Andrade disse em um poema que “lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã”. A meu ver o início desse poema tem duas interpretações. Uma: lutar COM palavras seria empreender um combate CONTRA as palavras para domá-las, dominá-las. Duas: lutar COM palavras seria empreender o combate cotidiano das nossas vidas ARMADO de palavras. E é nisso que quero chegar. Confesso que estou cansado de lutar com palavras. Declaro velhos todos os temas. Por isso esta é a última crônica que escrevo. Estou cansado dos assuntos. Alguns já eram caquéticos na minha adolescência, eram velhos na Idade Média, e hoje ainda estão na ordem do dia e parece que estarão em voga pelos milênios além, se o mundo sobreviver. Cheguei à conclusão de que o ser humano se resume nesta palavra: equívoco.

Acho que já produzi o suficiente, inclusive lixo. Repudio essa febre imediatista tecnológica. Eu sou um ser analógico, não virtual. Comecei escrevendo em máquina de escrever, depois de rabiscar bastante, e não compreendo a correria da mediocridade travestida de dinamismo que a era do computador trouxe, a pressa equivocadamente (olha a palavra aí) chamada de agilidade. Não suporto mais isso. Não aguento ver os quinhentos milhões de jornalistas que ostentam seus diplomas sem mostrar brilho nos olhos, a curiosidade, a necessidade de SE informar antes de querer informar, que deve nortear o trabalho de um jornalista. Alguns entraram na faculdade sem passar pela alfabetização. Não tolero os trezentos milhões de publicitários de hoje com seus notebooks antipáticos que tudo podem fazer e seus oitocentos cursos de especialização em marketing. São pessoas que JAMAIS seriam aceitas numa agência de propaganda de verdade, como as que existiram há mais de 25 anos. Lembra, Washington? Lembra, Nizan? Lembra, Neil? Lembra, seu Oswaldo? Lembra, Cacá?

Eu sei que tudo isso é muito amargo, mas o cansaço se abateu sobre a minha pessoa. Cansaço de tudo, cansaço do mundo, cansaço da vida, cansaço de mim. Por isso esta é a última crônica que escrevo. A última crônica que escrevo neste computador. Amanhã terei outro, muito mais avançado, que vai pensar por mim e escrever por mim. A depressão acima descrita vai desaparecer e eu estarei nivelado aos medíocres que estão aí, dominando o mercado e ditando as regras. Enquanto as engrenagens não me destruírem e eu resolva (ou seja coagido a) escrever minha última crônica. A última mesmo.